Barril de petróleo negociado nos EUA bate US$ 114 com pressão
O barril de petróleo WTI (referência americana) atingiu US$ 114,20 na Nymex nesta sexta-feira, maior cotação desde junho de 2022.
O barril de petróleo WTI (referência americana) atingiu US$ 114,20 na Nymex nesta sexta-feira, maior cotação desde junho de 2022. O movimento reflete a combinação de três fatores: a escalada militar no Golfo Pérsico, cortes de produção da OPEP+ e estoques americanos no nível mais baixo em dois anos.
O efeito Hormuz
A ameaça iraniana de fechar o Estreito de Hormuz — passagem de 21 milhas náuticas por onde transitam 17,3 milhões de barris por dia (20% do consumo global) — é o principal vetor de alta. Mesmo que o fechamento efetivo seja improvável, o risco é precificado pelo mercado: traders aumentaram posições compradas (apostando na alta) em 42% na última semana, segundo dados da ICE Futures Europe.
O petróleo Brent (referência internacional) acompanha em US$ 117,80, com spread incomum de US$ 3,60 sobre o WTI — indicador de que o mercado europeu, mais dependente do petróleo do Golfo, está precificando um risco maior de interrupção de fornecimento.
OPEP+ mantém cortes
A decisão da OPEP+ de manter os cortes voluntários de 2,2 milhões de barris/dia até o fim do segundo trimestre agravou o cenário. Arábia Saudita e Rússia, líderes do cartel, rejeitaram pedidos dos EUA para aumentar a produção, com o ministro saudita de Energia, Abdulaziz bin Salman, declarando que "o mercado está equilibrado" — frase que irritou Washington.
"A Arábia Saudita não vai aumentar produção para subsidiar uma guerra americana que ela não apoiou. É simples assim." — Fonte diplomática do Golfo ao Financial Times
Impacto nos postos brasileiros
Com o barril acima de US$ 110, a defasagem entre o preço internacional e o praticado pela Petrobras nas refinarias chega a 12%, segundo cálculos da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). Isso significa que a gasolina deveria estar, em média, R$ 0,45 mais cara por litro — diferença que a Petrobras absorve às custas de suas margens.
O mercado financeiro reage: ações da Petrobras (PETR4) subiram 6,2% na semana, refletindo a expectativa de que a estatal eventualmente repasse o aumento. O governo, por sua vez, tenta evitar o reajuste: o ministro da Fazenda declarou que "há espaço fiscal para amortecer o choque" — sem especificar como.
Inflação em cascata
O diesel, que já subiu 5,3% no acumulado de 2026, afeta diretamente o custo do frete — e, por consequência, tudo o que é transportado por caminhão no Brasil (ou seja, praticamente tudo). A Confederação Nacional de Transporte (CNT) estima que cada R$ 0,10 de aumento no diesel se traduz em 0,3% de alta no custo dos alimentos.
O IPCA-15 de março, divulgado pelo IBGE, já captou o início da pressão: o grupo Transportes subiu 1,8% no mês, puxado por combustíveis e passagens aéreas (que usam querosene de aviação, derivado do petróleo).
Cenário para o segundo semestre
Analistas ouvidos pela Xaplin trabalham com três faixas de preço para o barril até dezembro: US$ 90-100 (cenário de cessar-fogo rápido), US$ 100-120 (conflito prolongado sem fechamento do Hormuz) e US$ 130-150 (fechamento parcial do Hormuz ou destruição de infraestrutura petrolífera saudita). O consenso: o petróleo barato de 2023-2024 acabou.