O projeto de lei que criminaliza a misoginia é adequado

Toda manchete factual parece neutra à primeira vista. Mas nenhuma manchete é. Cada uma é uma escolha editorial sobre o que merece sua atenção hoje.

O projeto de lei que criminaliza a misoginia é adequado
Banca de Jornal — Opinião

Toda manchete factual parece neutra à primeira vista. Mas nenhuma manchete é. Cada uma é uma escolha editorial sobre o que merece sua atenção hoje.

O contexto que falta

"Brasil registra 15 episódios de estupro coletivo por dia"; "Colégio suspende alunos por misoginia"; "Polícia pede prisão de tenente-coronel marido de PM morta em São Paulo"; "Médica francesa é assassinada na Paraíba". Notícias do último mês de março nos fazem indagar: O que pode explicar a violência epidêmica contra nós, mulheres? Como enfrentar o padrão sistemático e generalizado de violação aos nossos direitos à vida, à integridade e à dignidade? Leia mais (04/10/2026 - 22h00)

Este é um daqueles momentos em que vale parar e perguntar: o que isso muda na vida concreta de quem paga imposto, pega ônibus, coloca comida na mesa? Porque se não muda nada, talvez não mereça a manchete. E se muda tudo, merece mais do que um parágrafo.

O problema do jornalismo factual sem análise é que ele informa sem explicar. Diz o quê sem dizer o porquê. E sem o porquê, o cidadão fica com dados e sem compreensão — que é a forma mais sofisticada de desinformação.

A distância entre a manchete e a vida real é medida em privilégio. Quanto mais longe você está do problema, mais fácil é virar a página.

Quem ganha e quem perde

Toda decisão política tem ganhadores e perdedores. A imprensa tradicional costuma apresentar decisões como eventos neutros — "governo anuncia", "Congresso aprova", "STF decide". Mas por trás de cada verbo neutro há uma redistribuição de poder, recurso ou direito. E essa redistribuição sempre beneficia alguém em detrimento de alguém.

A pergunta que esta coluna insiste em fazer é: quem? Quem ganha com isso? Quem perde? E quem vai pagar a conta no longo prazo? Essas perguntas são desconfortáveis porque as respostas quase sempre apontam para baixo — para quem tem menos voz, menos acesso, menos representação.

O padrão que se repete

Se você acompanha política brasileira há mais de cinco anos, já viu esse filme. Os personagens mudam, o roteiro não. Promessa, negociação, concessão, justificativa, esquecimento. O ciclo se repete com a regularidade de um relógio suíço em um país que não consegue manter um semáforo funcionando.

Não é coincidência. É design. O sistema político brasileiro foi desenhado para absorver crises sem mudar estruturalmente. O presidencialismo de coalizão não é defeito — é feature. Garante governabilidade ao preço da transformação. E quem paga esse preço é sempre o mesmo: quem precisa que as coisas mudem.

A democracia brasileira funciona. O problema é para quem ela funciona.

A opinião desta coluna

Não existe jornalismo sem posição. A isenção é uma ficção confortável para quem não quer se comprometer. Esta coluna se compromete: com a verdade factual, com a análise fundamentada, e com a coragem de dizer que nem tudo que é notícia merece a nossa resignação.

Algumas coisas merecem indignação. Esta é uma delas. E a indignação, quando fundamentada, não é emoção — é posição política. A mais legítima que existe.

O leitor da Xaplin não precisa concordar com esta coluna. Precisa pensar depois de lê-la. Se pensou, o texto cumpriu sua função. Se discordou com argumentos, melhor ainda. A democracia se fortalece no debate — não no silêncio conformado.

Beatriz Fonseca — Política & Sociedade. Banca de Jornal, Xaplin.