Matuê, Filipe Ret, Munhoz & Mariano, rodeio, exposições
Sempre que a cultura ganha espaço factual, a gente deveria prestar mais atenção do que presta.
Sempre que a cultura ganha espaço factual, a gente deveria prestar mais atenção do que presta.
Contexto
Matuê, Filipe Ret, Munhoz & Mariano, rodeio, exposições, e mais: confira a agenda do fim de semana no Espírito Santo Montagem/g1 A sexta-feira chegou, o fim de semana está batendo na porta, e o Espírito Santo tem programações para todos os gostos. Do rap ao sertanejo, passando por teatro infantil, oficinas para crianças, festivais culturais, gastronomicos e exposições movimentam esses dias. 📲 Clique aqui para seguir o canal do g1 ES no WhatsApp Entre os destaques, estão os shows de Matuê, Filip
Numa sociedade que mede tudo em métricas de engajamento, a cultura é a última resistência do que é lento, complexo e não-monetizável. E por isso mesmo é a primeira a ser cortada quando o orçamento aperta. O Brasil gasta mais em publicidade institucional em um mês do que investe em fomento cultural em um ano. Isso não é acidente. É declaração de prioridades.
A história que a manchete não conta
Toda manifestação cultural existe dentro de um ecossistema. O artista não cria no vácuo — cria dentro de condições materiais, políticas e sociais que determinam o que é possível. Quando um filme brasileiro é indicado ao Oscar, celebramos o gênio individual. Mas esquecemos de perguntar: quantos filmes não foram feitos porque o financiamento secou? Quantas histórias não foram contadas porque o artista precisou escolher entre criar e sobreviver?
A cultura que chega ao público é a ponta visível de um iceberg. Debaixo da superfície há uma estrutura de incentivo, formação, distribuição e preservação que no Brasil é cronicamente subfinanciada. Produzimos cultura de classe mundial com orçamento de bazar de escola.
A cultura não serve para nada — e é exatamente por isso que ela é indispensável. O que não serve para nada é o que nos faz humanos.
Arte e política: a falsa neutralidade
Toda arte é política — mesmo a que finge não ser. A escolha de não abordar política é, em si, uma posição política: a posição de quem pode se dar ao luxo de ignorar. Quando dizemos que arte não deve ser política, o que estamos realmente dizendo é que ela não deve incomodar quem está confortável.
A melhor arte brasileira sempre incomodou. Glauber incomodou. Gil incomodou. Clarice incomodou. Não porque queriam — porque a realidade brasileira, quando olhada de frente, é incômoda. O artista que não incomoda está decorando, não criando.
O que essa notícia revela
Que a cultura brasileira continua viva, pulsante, criativa e teimosa. Apesar dos cortes, dos algoritmos, da pressa. Continua existindo porque existe gente que acredita que fazer arte não é profissão — é destino. E porque o Brasil, com todos os seus defeitos, é um dos poucos países do mundo onde a criatividade popular é inesgotável.
Do funk ao frevo, do cordel ao cinema, da grafite ao design — a produção cultural brasileira é uma das mais ricas e diversas do planeta. Não porque temos condições ideais, mas porque temos talento em excesso e teimosia em quantidade industrial.
E isso, sim, merece uma manchete. Merece mais do que uma manchete — merece política pública, investimento e respeito.
André Cavalcanti — Cultura & Arte. Bica., Xaplin.
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