Machado de Assis não é chato. Você está lendo errado.

Um guia para quem desistiu na página 30 Todo brasileiro sabe que Machado de Assis é o maior escritor do Brasil.

Cultura

Um guia para quem desistiu na página 30

Todo brasileiro sabe que Machado de Assis é o maior escritor do Brasil. E uma quantidade alarmante de brasileiros nunca conseguiu terminar um livro dele. A experiência é quase universal: a escola manda ler Dom Casmurro, o aluno enfrenta aquele narrador que fala demais, perde o fio, fecha o livro e conclui que Machado é chato. Fim.

A culpa não é sua. A culpa é de quem te mandou começar por Dom Casmurro sem te explicar o que procurar. É como mandar alguém assistir a 2001: Uma Odisseia no Espaço sem avisar que o filme é sobre a solidão — a pessoa vai ficar esperando explosões que nunca vêm.

Por onde começar (de verdade)

Comece pelos contos. Machado escreveu mais de 200, e muitos são obras-primas completas em 10 páginas. "O Alienista" é uma sátira sobre quem tem o poder de definir o que é loucura — escrita em 1882 e absurdamente atual. "Missa do Galo" é uma aula de tensão erótica em que nada acontece e tudo acontece. "Pai contra Mãe" é sobre escravidão, e vai te dar um soco no estômago em 6 páginas.

Se quiser ir para os romances, não comece por Dom Casmurro. Comece por Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). É narrado por um morto. Sim, o narrador está morto e sabe disso. Ele é irônico, mentiroso, vaidoso, cruel e honesto sobre sua crueldade. É o narrador mais moderno da literatura brasileira — escrito 40 anos antes de Kafka, 80 anos antes do nouveau roman francês.

"Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte." — Brás Cubas, abrindo o livro com a frase mais moderna da literatura do século XIX.

O que procurar

Machado não escreve ação. Escreve silêncios. As coisas mais importantes nos livros dele acontecem entre as linhas — no que o narrador não diz, no que ele esconde, no que ele conta de um jeito que parece inocente mas é devastador.

Capitu traiu ou não traiu? A pergunta que assombra gerações de vestibulandos é, na verdade, a menor das perguntas de Dom Casmurro. A pergunta maior é: por que acreditamos em Bentinho? Ele é o narrador. Ele controla a história. Ele é ciumento, possessivo, e está nos contando a versão dele. Machado escreveu o primeiro narrador não confiável da literatura mundial — antes de Henry James, antes de Ford Madox Ford — e a maioria dos leitores ainda cai na armadilha.

Por que ele é o maior

Machado de Assis era neto de escravos, epiléptico, gago, autodidata, negro numa sociedade escravocrata. Nasceu em 1839 no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Não frequentou universidade. Não viajou à Europa. E escreveu uma obra que, relida hoje, se sustenta ao lado de Dostoiévski, Flaubert e Tolstói — não por comparação, mas por direito próprio.

Harold Bloom incluiu Machado no cânone ocidental. Susan Sontag o chamou de "o maior escritor negro de todos os tempos". Philip Roth disse que Memórias Póstumas era o livro que ele gostaria de ter escrito.

O Brasil não precisa de autorização estrangeira para saber que Machado é gigante. Mas precisa parar de maltratar seus livros nas escolas. Machado não é tarefa. Machado é liberdade — a liberdade de ler um autor que, há 140 anos, já sabia que a vida é absurda, que os poderosos são ridículos e que a verdade é a primeira coisa que o narrador esconde.

Roteiro mínimo

Para quem quer tentar de novo: leia "O Alienista" (30 minutos). Depois "Missa do Galo" (15 minutos). Depois "Pai contra Mãe" (20 minutos). Se esses três contos não funcionarem, tudo bem — Machado não é para todo mundo, e isso também é honesto. Mas se funcionarem, leia Memórias Póstumas. E prepare-se para descobrir que o livro mais engraçado e mais triste que você já leu foi escrito por um brasileiro em 1881.

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