EUA têm maior alta de empregos em 15 meses
— a maior alta em 15 meses. Em qualquer outro cenário, o dado seria comemorado com champanhe em Wall Street. Mas Wall Street não está comemorando.
Os Estados Unidos criaram 303 mil empregos em março — a maior alta em 15 meses. Em qualquer outro cenário, o dado seria comemorado com champanhe em Wall Street. Mas Wall Street não está comemorando. Está olhando para o Golfo Pérsico.
O paradoxo do emprego forte
Um mercado de trabalho aquecido é, normalmente, sinal de economia saudável. Mais empregos significam mais renda, mais consumo, mais crescimento. Mas no cenário atual, emprego forte pode significar algo perigoso: inflação persistente.
O Federal Reserve tem reduzido juros cautelosamente, tentando um pouso suave — desacelerar a economia o suficiente para controlar a inflação sem causar recessão. Dados de emprego fortes complicam esse cálculo. Se o mercado de trabalho continua aquecido, o Fed pode ser forçado a manter juros altos por mais tempo.
O dado de emprego mais forte em 15 meses chegou na pior hora possível: quando o mundo precisa de juros baixos para absorver o choque do petróleo.
O fator Irã
Petróleo acima de US$ 110 é um imposto invisível sobre toda a economia. Encarece transporte, energia, produção industrial, alimentos. Se o emprego forte mantém a inflação pressionada e o petróleo adiciona uma camada extra de pressão, o cenário é estagflação — o pior dos mundos: preços subindo com economia desacelerando.
Para o Brasil, o impacto é duplo. Juros americanos altos atraem capital para os EUA, pressionando o real. Petróleo caro aumenta custos de importação. O resultado: inflação importada num momento em que o Banco Central brasileiro também tenta cortar juros.
O que observar
A próxima reunião do Fed, em maio, será decisiva. Se os dados de emprego continuarem fortes e o petróleo não recuar, a expectativa de corte de juros nos EUA vai evaporar. E quando os juros americanos não caem, nenhum país emergente consegue cortar os seus sem pagar um preço em câmbio.
Os 303 mil empregos americanos são uma boa notícia. Mas no tabuleiro atual, boas notícias têm o hábito inconveniente de gerar consequências ruins.