Duas Brasílias: a cidade que o Plano Piloto não

67 anos depois, a capital modernista tem um problema antigo Brasília foi projetada para ser o futuro.

Cidades

67 anos depois, a capital modernista tem um problema antigo

Brasília foi projetada para ser o futuro. Lucio Costa e Oscar Niemeyer desenharam uma cidade que cabia inteira no traço — o Plano Piloto, com suas asas simétricas, seus eixos rodoviários e seus espaços verdes. O problema é que o futuro chegou e trouxe 3,1 milhões de pessoas. No Plano Piloto moram 220 mil. As outras 2,9 milhões vivem nas 33 regiões administrativas que o projeto original não previu.

Ceilândia tem 430 mil habitantes. Samambaia, 270 mil. Taguatinga, 222 mil. Estrutural, 40 mil. São cidades inteiras que existem na sombra de uma capital projetada para 500 mil pessoas.

Renda: o abismo em quilômetros

A renda domiciliar média mensal no Plano Piloto é de R$ 17.240, segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) 2024 da Codeplan. No Lago Sul, R$ 24.600. Na Estrutural, R$ 1.980. Em Ceilândia, R$ 3.420. Em Samambaia, R$ 2.890.

A distância entre a Estrutural e o Lago Sul é de 18 quilômetros. A distância em renda é de 1.142%. Não existe metrópole no Brasil com desigualdade tão concentrada em tão pouco espaço.

"Eu trabalho no Lago Sul, limpo três casas por semana. Cada casa dessas vale mais do que tudo que eu vou ganhar na vida inteira. Moro em Samambaia. Levo uma hora e meia pra chegar. Uma hora e meia pra voltar. Três horas olhando pela janela do ônibus a desigualdade passar." — Maria das Graças, 51 anos, diarista.

Transporte: quem paga pelo deslocamento

O metrô de Brasília tem duas linhas e 29 estações, cobrindo 42,4 km. Ele conecta Ceilândia e Samambaia ao Plano Piloto — mas com intervalos de até 15 minutos nos horários de pico e superlotação crônica. Moradores de regiões como Planaltina, Sobradinho e Paranoá dependem exclusivamente de ônibus, com trajetos que ultrapassam 2 horas.

Segundo a Codeplan, moradores de Ceilândia gastam em média 2 horas e 12 minutos por dia em deslocamento. No Plano Piloto, a média é de 28 minutos. No Lago Sul, 22 minutos.

Saúde: dois SUS no mesmo DF

O Hospital de Base, referência do Distrito Federal, fica no Plano Piloto. Os moradores das satélites dependem de UBSs e UPAs com capacidade insuficiente. Ceilândia tem uma UPA para 430 mil habitantes. O Plano Piloto tem o Hospital de Base, o Hospital Universitário de Brasília (HUB) e dezenas de clínicas particulares para 220 mil moradores.

A taxa de mortalidade infantil na Estrutural é de 18,3 por mil nascidos vivos. No Plano Piloto, 5,2 por mil. A média do Brasil é 12,4 por mil, segundo o Datasus 2024.

Educação: o Enem como espelho

A média do Enem 2025 nas escolas do Plano Piloto foi de 642 pontos. Em Ceilândia, 487. Na Estrutural, 451. No Lago Sul (escolas privadas), 718. A diferença entre a melhor e a pior média é de 267 pontos — quase a diferença entre entrar e não entrar em qualquer universidade pública do país.

Das dez melhores escolas do DF no Enem, nove ficam no Plano Piloto ou Lago Sul. Das dez piores, todas ficam em regiões administrativas periféricas.

A cidade que o urbanismo não resolveu

Brasília é a prova de que desenhar uma cidade bonita não é o mesmo que construir uma cidade justa. O Plano Piloto funciona — para quem mora nele. Para os outros 2,9 milhões, a capital federal é uma promessa de modernidade vista da janela do ônibus, a duas horas de distância.

Não são duas Brasílias por acidente. São duas Brasílias por projeto — o projeto de quem decide onde vai o hospital, onde passa o metrô, onde fica a escola boa. E esse projeto, desde 1960, tem endereço fixo.

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