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Dez anos após impeachment de Dilma

A Folha de S.Paulo publicou ontem (20 de abril de 2026) uma análise retrospectiva sobre o impeachment de Dilma Rousseff, ocorrido exatamente…

Intermezzo — Política & Sociedade

O Fato

A Folha de S.Paulo publicou ontem (20 de abril de 2026) uma análise retrospectiva sobre o impeachment de Dilma Rousseff, ocorrido exatamente uma década atrás. O veículo, que historicamente não apoiou o processo de afastamento da então presidente petista, reavalia o impacto dessa decisão institucional no cenário político brasileiro contemporâneo, destacando uma conclusão incômoda: enquanto o Brasil institucionalmente se transformou, o Partido dos Trabalhadores mantém-se preso aos mesmos marcos interpretativos de 2016.

Segundo a publicação, o impeachment foi caracterizado como "medida traumática, fundada em premissas jurídicas passíveis de discussão", que projetava "para o futuro divisões e inconformismos". Uma década depois, a análise da Folha constata que essa projeção se realizou, mas não de forma uniforme. As instituições brasileiras — Congresso, Judiciário, mídia, sociedade civil — passaram por transformações significativas. O próprio conceito de crime de responsabilidade presidencial foi reexaminado; processos de impeachment posteriores seguiram parâmetros diferentes; a polarização que emergiu em 2016 estabeleceu novas cartografias políticas.

O cenário atual de abril de 2026 é radicalmente distinto daquele de 2016. O Brasil vivencia uma quarta legislatura desde o afastamento de Dilma; dois presidentes já completaram mandatos; a economia conheceu ciclos diversos; novas gerações de eleitores chegaram às urnas. A própria Câmara dos Deputados que votou o impeachment foi integralmente renovada — duas vezes. O Supremo Tribunal Federal tem composição diversa. As redes sociais consolidaram seu papel de arena política. Mas, observa a Folha, o PT persiste na narrativa de 2016: apresenta-se como vítima de um golpe, convoca seus apoiadores sob a bandeira da injustiça histórica, recusa-se a integrar a narrativa de aprendizado institucional que o resto do país, gradualmente, construiu.

Essa incongruência não é trivial. Revela uma desconexão entre a temporalidade petista e a temporalidade institucional brasileira. Enquanto a nação se move para frente — absorvendo lições, reconfigurando poderes, testando novos arranjos — uma das maiores forças políticas do país permanece em pausa, eternizando o trauma de 2016 como se fosse acontecimento de ontem.

A Análise de Beatriz Fonseca

Preciso ser direta: o PT cometeu um erro estratégico monumental ao recusar-se a fazer o luto político. Não estou falando aqui em aceitar passivamente a narrativa de que o impeachment foi constitucionalmente legítimo — concordo com a Folha que há questionamentos jurídicos válidos. Estou falando de algo mais profundo: a incapacidade de transformar uma derrota em aprendizado institucional.

Quando você permanece dez anos repetindo a mesma narrativa de perseguição, você não está honrando Dilma. Está a ela tornando um símbolo mumificado, congelado no tempo. Você deixa de ser uma força política viva e se torna um memorial de ressentimento. E a sociedade brasileira, que naturalmente segue em frente, lê essa rigidez como dogmatismo, não como fidelidade.

Observo com atenção que outros atores políticos fizeram exatamente o oposto. A direita, derrotada eleitoralmente em 2022, passou por doloroso processo de renovação. Há erro em sua trajetória? Certamente. Mas ela reconhece a mudança dos tempos, adapta linguagem, busca novas coligações. O PT, curiosamente, age como se 2016 fosse uma ferida aberta que não cicatriza porque, secretamente, o partido prefere não deixá-la cicatrizar. O martírio é identidade.

"Um partido que vive do passado não governa o futuro. Governa a melancolia de seus próprios apoiadores."

O Brasil mudou. Suas instituições, apesar de frágeis e imperfeitas, demonstraram capacidade de absorção e transformação. O PT não. E isso não é vantagem política — é prisão. Enquanto isso, outras forças progredistas emergem, menos carregadas desse passivo emocional, mais ágeis na captura de novas demandas. A lição que a Folha nos oferece é amarga: não é possível permanecer indefinidamente em revolução permanente contra um evento passado. Em algum ponto, você precisa virar a página, ressignificá-la, integrá-la à sua própria história como aprendizado.

A pergunta que deveria ocupar a mente petista não é "como vingar 2016?" mas "como o PT se torna relevante em 2026 e além?" São perguntas profundamente diferentes.

Dez anos é tempo suficiente para construir algo novo. O PT ainda escolhe reconstruir o mesmo.

Beatriz Fonseca — Política & Sociedade. Intermezzo, Xaplin.