Tarifas dos EUA: como proteger seu dinheiro da guerra comercial
Coluna Ricardo Mendes — Análise do impacto das tarifas americanas nos investimentos brasileiros.
Donald Trump cumpriu a promessa: as tarifas recíprocas entraram em vigor em 2 de abril de 2026, atingindo exportações de 58 países. O Brasil, que exportou US$ 36 bilhões para os EUA em 2025, enfrenta tarifas de 25% sobre aço, 20% sobre soja processada e 15% sobre manufaturados. Para o investidor brasileiro, a pergunta não é se isso afeta — é como se proteger.
O que as tarifas mudam no cenário brasileiro
O impacto direto é na balança comercial: as exportações para os EUA devem cair 12% a 18% em 2026, segundo projeções do IPEA. Isso significa menos dólar entrando no país, o que pressiona o câmbio. O dólar, que já estava em R$ 5,78, pode testar R$ 6,00 no curto prazo se não houver compensação por outros mercados.
O impacto indireto é na confiança: empresas exportadoras adiam investimentos, o PIB desacelera, a arrecadação cai, o déficit fiscal aumenta, a agência de rating ameaça rebaixamento, o investidor estrangeiro sai — e o ciclo se alimenta. Não é catastrofismo; é mecânica econômica.
"Tarifas são impostos que o país importador cobra — mas quem paga, no fim, é o consumidor e o exportador. Ninguém ganha uma guerra comercial. Alguns apenas perdem menos."
Estratégia 1: Dolarize parte do patrimônio
Se o cenário é de pressão sobre o real, ter parte do patrimônio em dólar funciona como seguro. Não é especulação — é proteção. As opções mais acessíveis: ETFs de índices americanos (IVVB11 na B3, que replica o S&P 500); fundos cambiais (que acompanham a variação do dólar); ou, para quem tem conta no exterior, Treasuries americanos (títulos do governo dos EUA).
Proporção recomendada: 10% a 20% do patrimônio investível. Não é para ficar rico — é para não ficar pobre se o real desvalorizar 20% em seis meses, como aconteceu em 2020.
Estratégia 2: Renda fixa brasileira continua atrativa
Com Selic em 14,25% e expectativa de que fique acima de 12% até meados de 2027, a renda fixa brasileira oferece retornos reais (acima da inflação) de 7% ao ano — um dos maiores do mundo. Tesouro IPCA+ com vencimento longo é a melhor opção para quem pode esperar.
Estratégia 3: Ações de exportadoras em dólar
Empresas que vendem em dólar e têm custos em real se beneficiam da desvalorização cambial. Vale (minério), Suzano (celulose), JBS e BRF (proteínas) são exemplos. Mas atenção: empresas de aço (Gerdau, CSN, Usiminas) são diretamente afetadas pelas tarifas de 25% e devem sofrer no curto prazo.
O que evitar
Small caps endividadas em dólar: a combinação de câmbio alto + juros altos + desaceleração econômica é letal. Empresas de varejo e construção civil, que dependem de crédito doméstico, também tendem a sofrer. E criptomoedas: em cenários de aversão a risco global, ativos especulativos são os primeiros a cair.
Guerra comercial é incerteza. E incerteza exige diversificação, paciência e humildade para admitir que ninguém sabe como termina.