Ricardo Mendes — Abril será o mês mais tenso para a economia global

. Não é exagero. O dólar encerrou março a R$ 5,78, o maior patamar em seis meses. A Selic segue em 14,25%, com expectativa de novo aumento.

Coluna Ricardo Mendes — Economia

Abril de 2026 começa com o mercado financeiro em estado de alerta máximo. Não é exagero. O dólar encerrou março a R$ 5,78, o maior patamar em seis meses. A Selic segue em 14,25%, com expectativa de novo aumento. E o cenário externo, que deveria oferecer algum alívio, só piora: as tarifas recíprocas de Trump entram em vigor no dia 2, atingindo diretamente exportações brasileiras de aço, alumínio e soja processada.

O tripé da tensão: câmbio, juros e comércio

Os três vetores que pressionam a economia brasileira em abril se retroalimentam. O dólar alto encarece importações e pressiona a inflação. Para conter a inflação, o Banco Central mantém juros elevados. Juros elevados encarecem o crédito, desaceleram o consumo e reduzem a arrecadação. E as tarifas americanas, ao restringirem o acesso ao maior mercado consumidor do mundo, diminuem a entrada de dólares pela balança comercial — o que, por sua vez, pressiona o câmbio.

É um ciclo vicioso que economistas conhecem bem, mas que raramente se apresenta com tanta clareza em um único mês. O IPCA de março, divulgado no dia 10 de abril, será o termômetro. Se vier acima de 0,55% — a mediana das expectativas —, o Copom terá pouca margem para sinalizar cortes em maio.

As tarifas de Trump: o elefante na sala

O "Dia da Libertação" anunciado por Donald Trump para 2 de abril não é retórica. São tarifas de 25% sobre importações de 58 países, incluindo o Brasil, com alíquotas adicionais para setores específicos. O aço brasileiro, que já enfrentava barreiras de 10%, passa a 35%. A soja processada, que representou US$ 4,2 bilhões em exportações para os EUA em 2025, enfrenta pela primeira vez uma tarifa de 20%.

"O protecionismo americano não é novidade. A novidade é a escala. Estamos diante de uma reestruturação forçada das cadeias de comércio global, e o Brasil precisa decidir se vai reagir, se adaptar, ou simplesmente assistir."

O Itamaraty sinalizou que buscará negociação bilateral. O Ministério da Fazenda anunciou um pacote de compensação para exportadores afetados. Mas a verdade inconveniente é que nenhuma medida doméstica compensa uma queda de 15% a 20% na competitividade de produtos brasileiros no mercado americano de um dia para o outro.

O que fazer com seu dinheiro em abril

Para o investidor pessoa física, abril exige cautela e diversificação. Renda fixa pós-fixada continua sendo a posição mais segura: com a Selic em 14,25%, títulos atrelados ao CDI rendem mais de 1% ao mês com risco praticamente zero. O Tesouro IPCA+ com vencimento em 2035 oferece juros reais de 7,2% — um dos maiores patamares da história.

Ações pedem seletividade. Exportadoras de commodities em dólar (Vale, Suzano, JBS) se beneficiam do câmbio, mas sofrem com as tarifas. Bancos e elétricas, com receita em real e menos exposição externa, tendem a ser mais resilientes. Evite small caps e empresas endividadas em dólar: a combinação de câmbio alto e juros altos é letal para balanços alavancados.

O Brasil não vai quebrar — mas vai doer

É importante manter perspectiva. O Brasil tem reservas internacionais de US$ 340 bilhões, superávit primário em trajetória de recuperação e um sistema financeiro sólido. Não estamos à beira de uma crise cambial nos moldes de 1999 ou 2015. Mas "não quebrar" é uma barra muito baixa para um país que precisa crescer 3% ao ano para gerar emprego suficiente.

Abril será o mês em que descobriremos se o governo tem plano B. Se a resposta for apenas retórica e medidas paliativas, o mercado cobrará — e o preço chegará ao bolso do cidadão antes de chegar às manchetes.

Ricardo Mendes é colunista de Economia & Finanças da Xaplin