Marcos Tibúrcio — A contagem regressiva para a Copa
, e o Brasil ainda não sabe exatamente o que é.
Faltam 75 dias para a abertura da Copa do Mundo de 2026, e o Brasil ainda não sabe exatamente o que é. A seleção de Dorival Júnior oscila entre lampejos de talento individual e uma preocupante falta de identidade coletiva. O amistoso contra a Croácia, em março, terminou em 1x1 — um resultado que diz menos pelo placar e mais pelo que se viu em campo: um time com peças de luxo e nenhuma engrenagem.
O calendário aperta — e as perguntas aumentam
A FIFA divulgou o calendário completo. O Brasil estreia no dia 12 de junho, em Houston, contra a Sérvia. O grupo inclui ainda Suíça e Camarões. No papel, é um grupo acessível. Na prática, é exatamente o tipo de grupo que expõe fragilidades: adversários organizados, que jogam em bloco, que não dão espaços. Exatamente o tipo de jogo que o Brasil de 2026 ainda não mostrou saber resolver.
Dorival tem convocado uma base consistente: Alisson no gol; Militão e Marquinhos na zaga; Vinícius Jr., Rodrygo e Raphinha no ataque. O problema não está nos nomes — está na conexão. Em 8 jogos sob o novo comando, o Brasil marcou 12 gols, mas sofreu 9. Para uma seleção que historicamente se define pelo ataque, a fragilidade defensiva é alarmante. Para uma seleção que precisa funcionar como equipe, a dependência de jogadas individuais é preocupante.
"O Brasil tem jogadores de Copa do Mundo. A pergunta é se tem um time de Copa do Mundo. Com 75 dias para a estreia, a resposta ainda é: talvez."
O fantasma do 7x1 e a pressão de jogar em casa vizinha
A Copa de 2026 será nos Estados Unidos, México e Canadá — mas para o torcedor brasileiro, o trauma de 2014 nunca está longe. O 7x1 contra a Alemanha não foi apenas uma derrota: foi uma ruptura. Desde então, nenhuma seleção brasileira entrou em campo sem carregar o peso daquela noite. E nenhuma conseguiu exorcizá-lo.
Em 2018, caiu nas quartas para a Bélgica. Em 2022, caiu nas quartas para a Croácia — nos pênaltis, com vantagem no placar desperdiçada. O padrão é claro: o Brasil chega competitivo, mas trava quando o jogo pede mais do que talento. Pede organização, frieza, leitura de momento. Exatamente as qualidades que o futebol-arte brasileiro historicamente subestimou.
O que precisa acontecer em 75 dias
Primeiro, definir um esquema tático e mantê-lo. Dorival testou 4-3-3, 4-2-3-1 e até 3-5-2 nos últimos jogos. A versatilidade tática é virtude — a indefinição tática é defeito. A seleção precisa de uma estrutura que os jogadores conheçam de cor, que funcione no automático quando a pressão apertar.
Segundo, resolver o meio-campo. Casemiro não é mais o jogador de 2022. Bruno Guimarães é talentoso, mas ainda não se firmou como líder. Paquetá carrega a sombra de uma investigação por violação de regras de apostas. O setor que historicamente definiu o futebol brasileiro — de Gérson a Falcão, de Rivaldo a Kaká — é hoje o mais frágil da seleção.
Terceiro, preparar o emocional. A Copa é uma competição de picos e vales. O time que controla as emoções nos momentos decisivos — pênaltis, acréscimos, jogos eliminatórios — é o time que avança. O Brasil precisa de um psicólogo no banco, não apenas de um treinador.
A esperança tem nome — mas falta sobrenome
Vinícius Jr. é, indiscutivelmente, um dos cinco melhores jogadores do mundo. Endrick carrega a promessa de uma geração. Mas Copas não se ganham com dois jogadores. Se ganham com 23 que acreditam no mesmo plano. É isso que Dorival tem 75 dias para construir. O relógio já está correndo.