Dra. Camila Torres — Burnout parental

, uma mulher de 34 anos mexe no celular com as mãos trêmulas. Não dormiu mais de cinco horas seguidas nos últimos oito meses.

Coluna Dra. Camila Torres — Saúde

Na sala de espera do meu consultório, uma mulher de 34 anos mexe no celular com as mãos trêmulas. Não dormiu mais de cinco horas seguidas nos últimos oito meses. O bebê acorda três vezes por noite. O mais velho, de quatro anos, está em fase de birras que testam qualquer manual de parentalidade positiva. O marido trabalha das 8 às 19. Ela trabalha das 8 às 18 — e depois começa o segundo turno, que não tem hora para acabar.

Quando pergunto como ela está, a resposta é sempre a mesma: "Cansada, mas tá todo mundo bem." A frase é o epitáfio do burnout parental: o esgotamento que não se permite existir porque os filhos "estão saudáveis" e, portanto, a mãe não tem direito de reclamar.

O burnout parental é real — e tem nome clínico

O termo "burnout parental" foi formalizado em 2019 pelas pesquisadoras belgas Isabelle Roskam e Moïra Mikolajczak, da Universidade de Louvain. A definição é precisa: exaustão física e emocional relacionada ao papel parental, acompanhada de distanciamento afetivo dos filhos e perda de eficácia percebida como pai ou mãe. Não é cansaço. Não é preguiça. É um colapso funcional com consequências mensuráveis.

Um estudo publicado no Journal of Family Psychology em janeiro de 2026, com 12 mil pais em 38 países, revelou que o Brasil tem a terceira maior taxa de burnout parental entre os países pesquisados — atrás apenas de Turquia e Egito. Cerca de 32% das mães e 18% dos pais brasileiros apresentam sintomas compatíveis com o diagnóstico. Entre mães solo, o número sobe para 47%.

"A sociedade romantiza a maternidade e invisibiliza o custo. A mãe é santa, é guerreira, é incansável. E quando ela cansa — porque ela cansa —, é tratada como se tivesse falhado."

Os sintomas que ninguém associa à parentalidade

O burnout parental não se parece com o que a maioria das pessoas imagina. Não é uma mãe chorando no banheiro (embora isso também aconteça). É uma irritabilidade constante e desproporcional: gritar com a criança por derramar leite e sentir culpa imediata. É olhar para os filhos e sentir, em vez de amor, uma obrigação pesada. É fantasiar com uma vida sem filhos — e sentir vergonha dessa fantasia.

Fisicamente, manifesta-se como dores crônicas sem causa aparente, insônia paradoxal (exausto mas incapaz de dormir), queda de cabelo, problemas gastrointestinais e uma susceptibilidade a infecções que reflete um sistema imunológico sob estresse contínuo. Muitos pais passam meses tratando "sintomas" individuais sem que nenhum profissional conecte os pontos.

O que funciona — segundo a ciência

Primeiro, quebrar o isolamento. O fator de proteção mais consistente contra burnout parental, segundo a meta-análise de 2026, é a rede de apoio. Não a rede idealizada — avós disponíveis, marido presente, babá confiável —, mas qualquer forma de compartilhamento real da carga: um vizinho que busca na escola, um grupo de pais que se reveza, uma creche que funciona.

Segundo, abandonar a parentalidade performática. Redes sociais criaram um padrão de maternidade e paternidade que não existe. A mãe que faz lancheira temática, leva ao balé, estimula em inglês e ainda mantém a casa organizada não é um modelo — é uma ficção. Reduzir expectativas não é negligência; é sobrevivência.

Terceiro, terapia. Não como luxo, mas como necessidade clínica. A terapia cognitivo-comportamental focada em burnout parental tem eficácia comprovada em 67% dos casos em 12 semanas. Mas no Brasil, o acesso a psicoterapia pelo SUS tem fila de espera média de 4 meses — tempo suficiente para um burnout se transformar em depressão clínica.

Não é fraqueza — é fisiologia

Cuidar de crianças é o trabalho mais exigente que existe. Não é opinião — é mensuração. Estudos de variabilidade cardíaca mostram que pais de crianças pequenas mantêm níveis de cortisol compatíveis com profissionais de pronto-socorro. A diferença é que o plantonista vai para casa. O pai e a mãe já estão em casa — e o plantão não acaba.

Se você se reconheceu neste texto, saiba: você não é fraco. Você não é ingrato. Você está sobrecarregado em um sistema que espera que você funcione como máquina. E máquinas também quebram.

Dra. Camila Torres é colunista de Saúde & Bem-estar da Xaplin