Eleições 2026: o tabuleiro já está montado e ninguém percebeu

Coluna de Beatriz Fonseca — Política & Sociedade.

Coluna Beatriz Fonseca — Política

O tabuleiro eleitoral de 2026 já está montado, e a maioria dos brasileiros ainda não percebeu. Enquanto a atenção pública se divide entre a Copa do Mundo, a alta do dólar e as tarifas de Trump, os bastidores de Brasília operam em velocidade máxima: alianças sendo costuradas, candidaturas sendo testadas, fundos sendo distribuídos. Outubro está a seis meses de distância, mas para quem joga o jogo, a eleição já começou.

O cenário fragmentado que a pesquisa revela

A pesquisa Datafolha de março de 2026 desenhou um quadro inédito: nenhum candidato ultrapassa 25% das intenções de voto para presidente. Lula, que não pode concorrer a um terceiro mandato consecutivo, deixa o campo da esquerda sem nome óbvio. Bolsonaro, inelegível até 2030, tenta influenciar a escolha do candidato da direita do exílio político. E o centro — esse eterno órfão da política brasileira — ensaia uma candidatura própria pela primeira vez desde 2018.

Os nomes mais citados são reveladores: Tarcísio de Freitas (Republicanos), com 22%; Marina Silva (Rede), com 18%; Ciro Gomes (PDT), com 12%; Simone Tebet (MDB), com 9%; e Pablo Marçal (PRTB), com 8%. É um campo pulverizado, sem favorito claro, onde o segundo turno é inevitável e a composição das alianças define tudo.

"A eleição de 2026 não será sobre esquerda versus direita. Será sobre quem consegue montar a coalizão mais ampla em um país que perdeu a paciência com todos os lados."

A máquina por trás dos nomes

O que a pesquisa não mostra — e os bastidores revelam — é que a eleição de 2026 será decidida menos pelos candidatos e mais pelas máquinas partidárias. O fundo eleitoral, estimado em R$ 6,5 bilhões, é a moeda de troca mais poderosa. Partidos com mais tempo de televisão e mais recursos atraem candidatos competitivos; candidatos competitivos atraem votos que, por sua vez, garantem mais fundo na eleição seguinte.

Nesse jogo, o Centrão não é coadjuvante — é protagonista. PP, PL, União Brasil e PSD controlam juntos mais de 40% da Câmara e boa parte dos governos estaduais. Qualquer candidato viável à presidência precisa da bênção de pelo menos dois desses partidos. E a bênção não é ideológica — é transacional.

O eleitor invisível

O dado mais preocupante não é nenhum nome: 34% dos entrevistados disseram que pretendem votar nulo ou branco. É o maior índice de rejeição à oferta eleitoral já registrado. Esses 34% não são apáticos — são desiludidos. São o eleitorado que nenhum partido quer conquistar, porque conquistá-los exigiria oferecer algo que a política brasileira há muito deixou de prometer: honestidade sobre os limites do poder.

Seis meses é muito tempo — e pouco. Mas a estrutura é clara: 2026 será uma eleição de coalizão, não de paixão. Vencerá quem juntar mais peças, não quem gritar mais alto.

Beatriz Fonseca é colunista de Política & Sociedade da Xaplin