Beatriz Fonseca — A crise de representatividade que abril

, elegeram 5.568 prefeitos, mais de 58 mil vereadores e reafirmaram, pelo menos na aparência, que a democracia representativa segue funcionando.

Coluna Beatriz Fonseca — Política

Quando os brasileiros foram às urnas em outubro de 2024, elegeram 5.568 prefeitos, mais de 58 mil vereadores e reafirmaram, pelo menos na aparência, que a democracia representativa segue funcionando. Mas basta olhar de perto para perceber que representação, no Brasil de 2026, tornou-se uma palavra que diz cada vez menos.

Os números que incomodam

A pesquisa Datafolha de março de 2026 revelou que apenas 12% dos brasileiros se sentem "bem representados" por seus políticos eleitos. É o menor índice desde que a pergunta começou a ser feita, em 2006. Entre jovens de 18 a 29 anos, o número cai para 7%. Entre eleitores com renda de até dois salários mínimos — a maioria da população —, é 9%.

Esses números não surpreendem quem acompanha a política brasileira. Mas deveriam alarmar quem se preocupa com o futuro da democracia. Uma democracia em que quase 90% dos cidadãos não se sentem representados não é uma democracia em crise — é uma democracia que funciona apenas como procedimento, esvaziada de substância.

Abril expõe a fratura

O mês de abril de 2026 é particularmente revelador. Com as eleições gerais de outubro no horizonte, o Congresso entrou em modo pré-campanha. Projetos de interesse público — a reforma tributária regulamentar, o marco regulatório da IA, a atualização do Código de Processo Penal — foram adiados para o segundo semestre, se tanto. No lugar, a pauta é dominada por emendas parlamentares, cargos no segundo escalão e negociações de coligação.

"O cidadão olha para Brasília e vê um parlamento que legisla para si mesmo. A sensação de abandono não é paranoia — é diagnóstico."

A janela partidária, que se encerra em abril, produziu o maior volume de migrações entre partidos em duas décadas. Mais de 180 deputados federais trocaram de legenda desde janeiro. A justificativa oficial é sempre "alinhamento programático". A justificativa real é tempo de televisão, fundo eleitoral e vaga em chapa competitiva. O eleitor que votou em um partido descobre que seu representante agora está em outro — frequentemente com posições opostas.

O vazio que a extrema-direita e a extrema-esquerda disputam

Quando o centro se esvazia de credibilidade, os extremos se apresentam como alternativa. Não é coincidência que os dois políticos com maior taxa de "representatividade percebida" na pesquisa Datafolha sejam figuras polarizadoras. O discurso é oposto, mas a mecânica é a mesma: oferecer identidade onde o centro oferece tecnocracia; oferecer pertencimento onde o centro oferece procedimento.

Isso não é exclusividade brasileira. Da Argentina de Milei à França de Le Pen, passando pelos Estados Unidos de Trump, a crise de representação do centro democrático é global. Mas no Brasil ela tem características próprias: um sistema partidário com 29 partidos no Congresso, um presidencialismo de coalizão que exige negociação permanente e uma desigualdade social que transforma a política em um jogo entre quem pode esperar e quem não pode.

A saída não é simples — mas existe

Reformas estruturais — cláusula de barreira mais rígida, fim das coligações em eleições proporcionais, financiamento público vinculado a desempenho — são necessárias, mas insuficientes. O problema não é apenas institucional. É cultural. Uma geração de brasileiros cresceu vendo a política como sinônimo de corrupção, e nenhuma reforma eleitoral muda essa percepção sem exemplos concretos de políticos que mereçam confiança.

Abril vai e vem. As eleições chegam e passam. Mas a fratura entre representantes e representados só cresce. E democracias que perdem legitimidade popular não morrem de golpe — morrem de indiferença.

Beatriz Fonseca é colunista de Política & Sociedade da Xaplin