André Cavalcanti — O cinema brasileiro
, em 2026, um momento que seria impensável dez anos atrás.
O cinema brasileiro vive, em 2026, um momento que seria impensável dez anos atrás. "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, levou o Oscar de Melhor Filme Internacional em fevereiro e permanece em cartaz em 47 países. Fernanda Torres tornou-se um fenômeno global, com três capas de revistas americanas em dois meses. E a Embrafilme 2.0 — o programa de fomento relançado pelo governo federal em 2025 — começa a dar frutos: 23 longas-metragens brasileiros têm estreia confirmada para o segundo semestre.
Os 5 filmes que você não pode perder em 2026
"A Queda do Céu" — Dirigido por Ailton Krenak e Renée Nader Messora, é o primeiro longa-metragem brasileiro com direção indígena a receber financiamento integral da Embrafilme. Baseado no livro homônimo de Davi Kopenawa e Bruce Albert, o filme mistura documentário e ficção para contar a cosmologia Yanomami. Estreia prevista para agosto, já selecionado para o Festival de Veneza.
"Rua Augusta" — Anna Muylaert retorna com um olhar sobre a gentrificação de São Paulo, acompanhando quatro personagens cujas vidas se cruzam na rua mais emblemática da cidade. Com Seu Jorge e Taís Araújo no elenco, o filme promete ser o retrato urbano mais incisivo desde "Que Horas Ela Volta?".
"O Diabo na Rua, no Meio do Redemunho" — A adaptação definitiva de "Grande Sertão: Veredas" que o cinema brasileiro tentou por décadas. Direção de Karim Aïnouz, com Silvero Pereira como Riobaldo. Filmado integralmente no sertão de Minas Gerais, com elenco majoritariamente local. Três horas de duração, sem concessões.
"Marighella — Os Últimos Dias" — Wagner Moura retorna à direção com a continuação não-oficial de seu filme de 2021, agora focando nos últimos meses de Carlos Marighella antes de sua execução em 1969. Mais intimista que o primeiro, o filme abandona a ação e mergulha no dilema moral da resistência armada.
"Noites Alienígenas 2: O Retorno" — Sérgio de Carvalho leva sua ficção científica amazônica para outro nível, com orçamento quintuplicado e efeitos visuais de estúdio brasileiro. A premissa — uma invasão extraterrestre vista da perspectiva de uma comunidade ribeirinha — é absurda e genial, exatamente como o cinema precisa ser.
"O cinema brasileiro de 2026 não pede licença. Não se desculpa por existir. Não tenta parecer estrangeiro. Pela primeira vez em uma geração, faz filmes que são inconfundivelmente brasileiros e universalmente relevantes."
O efeito Oscar — e seus limites
A vitória de "Ainda Estou Aqui" abriu portas que estavam fechadas há décadas. Distribuidoras internacionais que ignoravam o cinema brasileiro agora procuram produtoras nacionais. A Netflix anunciou cinco produções originais brasileiras para 2027. A A24, distribuidora americana cult, fechou acordo com a RT Features para três co-produções.
Mas o Oscar é uma porta, não uma garantia. O cinema argentino ganhou dois Oscar em dez anos (2010 e 2024) e continua lutando por público doméstico. O cinema coreano explodiu após "Parasita" (2020), mas o mercado interno se contraiu. O desafio brasileiro é converter atenção internacional em sustentabilidade doméstica — e isso depende menos de prêmios e mais de políticas de exibição, educação de público e combate à pirataria digital.
O público é a última fronteira
Em 2025, filmes brasileiros representaram 11% da bilheteria nacional — contra 4% em 2019. É progresso, mas ainda significa que 89% do que o brasileiro assiste no cinema é produzido fora do país. A sala de cinema brasileira exibe, em média, 3 filmes nacionais por mês entre 12 estreias. A lei de cota de tela, que garante espaço mínimo, é sistematicamente burlada por exibidores que programam sessões nacionais em horários mortos.
O cinema brasileiro de 2026 produz como nunca. Ganha prêmios como nunca. Mas o encontro com seu próprio público — esse encontro que define se uma cinematografia é viva ou apenas decorativa — ainda está por acontecer.