O cinema brasileiro finalmente chegou

Coluna de André Cavalcanti — Cultura & Arte.

Coluna André Cavalcanti — Cultura

Quando Fernanda Torres subiu ao palco do Dolby Theatre, em fevereiro de 2026, para receber a estatueta de Melhor Filme Internacional por "Ainda Estou Aqui", algo mudou no cinema brasileiro. Não foi apenas um prêmio. Foi o reconhecimento de que o Brasil pode fazer cinema de altíssimo nível artístico sem precisar parecer europeu, sem precisar parecer americano, sem precisar se desculpar por ser brasileiro.

O filme que o Brasil precisava — no momento exato

"Ainda Estou Aqui" conta a história de Eunice Paiva, esposa do deputado Rubens Paiva, desaparecido pela ditadura militar em 1971. Mas Walter Salles fez algo mais sofisticado do que um filme sobre ditadura: fez um filme sobre a persistência. Sobre a mulher que ficou. Sobre a memória como ato político. Sobre o que significa continuar quando tudo conspira para que você pare.

Fernanda Torres — filha de Fernanda Montenegro, que foi indicada ao Oscar por "Central do Brasil" em 1999 — entregou uma atuação que redefiniu o que "conter" significa em cinema. Eunice Paiva, na interpretação de Torres, não grita, não chora em câmera, não tem monólogos dramáticos. Ela resiste — em silêncio, em gestos, em olhares que dizem mais do que qualquer diálogo poderia.

"O Oscar não valida o cinema brasileiro — o cinema brasileiro já era válido antes. Mas o Oscar abre portas que estavam trancadas, e abrir portas é sempre bom."

O que o Oscar muda — e o que não muda

A vitória produziu efeitos imediatos. A Netflix fechou acordo para distribuir o filme em 190 países. Seis roteiristas brasileiros foram convidados para programas de residência em Los Angeles. A Embrafilme recebeu um aumento de R$ 200 milhões no orçamento de 2027. Produtoras internacionais que ignoravam o Brasil agora respondem e-mails.

Mas o Oscar é uma porta, não um destino. O cinema mexicano viveu um boom após "Roma" (2018) e "CODA" (2021), mas o mercado interno mexicano de cinema continua dominado por Hollywood. O cinema sul-coreano explodiu globalmente após "Parasita" (2020), mas as salas de cinema na Coreia do Sul registraram queda de público em 2024. O prêmio gera atenção — sustentá-la exige política, infraestrutura e público.

O que Walter Salles nos ensina sobre cinema

Walter Salles não faz filmes rápidos. Foram oito anos entre "Linha D'Água" (2018, nunca lançado) e "Ainda Estou Aqui". Oito anos de pesquisa, entrevistas com a família Paiva, idas e vindas de roteiro, três versões diferentes da montagem. Numa era de conteúdo descartável, em que séries são canceladas após uma temporada e filmes saem do cinema em três semanas, Salles insiste no tempo como ingrediente.

Isso importa. Importa porque o cinema brasileiro que funciona — de "Cidade de Deus" a "Bacurau", de "O Som ao Redor" a "Ainda Estou Aqui" — é cinema que leva tempo. Que não tem pressa de agradar. Que confia na inteligência do espectador. Que prefere incomodar a entreter.

E agora?

Agora é o momento mais perigoso. A tentação pós-Oscar é imitar a fórmula: fazer filmes "de Oscar", com temas nobres e atuações contidas, mirando o mercado internacional. Seria um erro. O que levou "Ainda Estou Aqui" ao Oscar não foi a tentativa de agradar a Academia — foi a recusa de fazer qualquer coisa que não fosse autenticamente brasileiro.

O cinema brasileiro que vem aí — o "Grande Sertão" de Karim Aïnouz, o "Marighella 2" de Wagner Moura, o "Noites Alienígenas 2" de Sérgio de Carvalho — precisa manter essa coragem. Não filmar para exportação. Filmar para existir. O mundo que se vire para entender.

André Cavalcanti é colunista de Cultura & Arte da Xaplin