Os 10 livros brasileiros que o mundo deveria ler — e ainda não leu

Coluna André Cavalcanti — 10 obras-primas da literatura brasileira que merecem tradução global.

Coluna André Cavalcanti — Cultura

A literatura brasileira é, possivelmente, o segredo mais bem guardado do mundo. Enquanto autores colombianos, argentinos e chilenos conquistaram leitores globais, o Brasil — com a maior produção literária da América Latina — permanece quase invisível fora do eixo lusófono. A barreira do idioma explica parte do problema. A falta de política editorial de tradução explica o resto. Aqui estão 10 livros que mereciam estar em todas as estantes do planeta — e ainda não estão.

1. "Grande Sertão: Veredas" — Guimarães Rosa (1956)

O Ulisses brasileiro. Uma travessia pelo sertão que é, simultaneamente, um tratado filosófico sobre o bem e o mal, uma história de amor impossível e uma reinvenção da língua portuguesa. Rosa inventou palavras, fundiu sintaxe com paisagem e criou um narrador — Riobaldo — que é tão complexo quanto qualquer personagem de Dostoiévski. A tradução inglesa existe, mas não faz justiça. Talvez nenhuma tradução possa.

2. "Memórias Póstumas de Brás Cubas" — Machado de Assis (1881)

Um morto narra sua própria vida com ironia cortante, digressões filosóficas e uma modernidade que antecipa Pirandello, Borges e Calvino por décadas. Machado de Assis é, para quem conhece, um dos cinco maiores escritores do século XIX. Para quem não conhece — ou seja, a maioria do mundo —, é uma descoberta que muda parâmetros.

3. "Vidas Secas" — Graciliano Ramos (1938)

A seca do Nordeste em linguagem seca. Frases curtas, sem adjetivos desnecessários, sem piedade. Uma família de retirantes e uma cachorra chamada Baleia. Ramos faz com 170 páginas o que muitos autores não conseguem com mil: torna o sofrimento legível sem torná-lo espetáculo.

4. "A Hora da Estrela" — Clarice Lispector (1977)

Macabéa, nordestina em São Paulo, existe na margem de tudo: da cidade, da linguagem, da própria narrativa. Clarice já era reconhecida internacionalmente, mas este romance — curto, devastador, inclassificável — é o que melhor demonstra sua capacidade de transformar a insignificância em epifania.

5. "Quarup" — Antônio Callado (1967)

O grande romance político brasileiro. Um padre que vai ao Xingu, descobre o Brasil real e se transforma em revolucionário. Callado escreveu um épico de 600 páginas que é, simultaneamente, romance de formação, alegoria política e reportagem disfarçada. Praticamente desconhecido fora do Brasil.

6. "Lavoura Arcaica" — Raduan Nassar (1975)

A destruição de uma família patriarcal contada em prosa que é mais poesia do que narrativa. Nassar escreveu dois livros e parou. Este é o primeiro. É suficiente para garantir-lhe um lugar entre os maiores estilistas da língua portuguesa — e possivelmente de qualquer língua.

7. "Torto Arado" — Itamar Vieira Junior (2019)

O romance brasileiro contemporâneo mais importante. Duas irmãs quilombolas na Chapada Diamantina, terra, violência, ancestralidade. Vieira Junior escreveu o livro que o Brasil precisava: um que olha para dentro, para o chão, para as vozes que sempre estiveram lá mas ninguém publicava.

8. "O Quinze" — Rachel de Queiroz (1930)

Escrito aos 19 anos. A seca de 1915 no Ceará. Rachel de Queiroz foi a primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras, e este romance de estreia — direto, sem sentimentalismo, com personagens femininas que recusam a passividade — explica por quê.

9. "Capitães da Areia" — Jorge Amado (1937)

Meninos de rua em Salvador. Amado era comunista, baiano e contava histórias que o povo entendia. Este romance — censurado pela ditadura Vargas — é o mais visceral de sua fase social: sem o exotismo que marcaria sua obra posterior, e com uma raiva que ainda queima.

10. "Um Defeito de Cor" — Ana Maria Gonçalves (2006)

900 páginas. Uma mulher africana escravizada no Brasil do século XIX narra sua vida para o filho que lhe foi tirado. É o "Raízes" brasileiro — um romance que reconstrói, com precisão histórica e potência literária, a experiência que o Brasil passou séculos tentando apagar. Deveria ser leitura obrigatória em qualquer curso de literatura das Américas.

"O Brasil escreve como poucos países. O problema nunca foi o texto — foi o passaporte."
André Cavalcanti é colunista de Cultura & Arte da Xaplin