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Automutilação em Adolescentes

A automutilação entre adolescentes brasileiros representa uma crise silenciosa que finalmente ganhou visibilidade nos dados oficiais.

Banca de Jornal — Saúde & Bem-estar

O Fato

A automutilação entre adolescentes brasileiros representa uma crise silenciosa que finalmente ganhou visibilidade nos dados oficiais. Segundo informações da G1, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) divulgou em 2025 que os problemas de saúde mental respondem por 16% de todas as doenças e lesões que acometem a população adolescente globalmente. No contexto nacional, os números são particularmente preocupantes: a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro registrou, em 2023, impressionantes 13.007 notificações de violência autoprovocada, sendo que 25% desses casos envolvem adolescentes—o que corresponde a aproximadamente 3.250 casos confirmados apenas em uma unidade federativa.

Esses números não representam apenas estatísticas frias. Traduzem-se em meninos e meninas, frequentemente entre 13 e 17 anos, que recorrem ao corte, queimadura ou outros métodos de lesão deliberada como estratégia de enfrentamento emocional. A automutilação funciona, nessa população vulnerável, como um mecanismo paradoxal de regulação: enquanto infligem dor física, muitos adolescentes relatam sensação de alívio temporário da angústia psicológica que carregam.

O crescimento do fenômeno coincide com fatores bem documentados: a pandemia de COVID-19 intensificou o isolamento social, o acesso irrestrito a conteúdos prejudiciais nas redes sociais, pressão acadêmica crescente e a normalização de discussões sobre saúde mental entre pares—que, embora educativa, às vezes funciona como gatilho quando apresentada inadequadamente. Escolas relatam aumento de casos identificados, mas muitos ainda passam despercebidos, perpetuando um ciclo de silêncio e negligência institucional.

A escola emerge, portanto, como espaço crítico de detecção e intervenção. Educadores passam entre 5 e 8 horas diárias com adolescentes, têm capacidade de observar comportamentos de risco e, fundamentalmente, conquistam a confiança necessária para que jovens se abram sobre seus sofrimentos. Contudo, a maioria das instituições de ensino brasileiras carece de protocolos adequados, treinamento de pessoal e parcerias efetivas com serviços de saúde mental para responder a essa demanda emergencial.

A Análise de Dra. Camila Torres

Precisamos ser diretas: a automutilação em adolescentes não é uma "moda" ou busca por atenção, como ainda ouço em consultório. É um grito de desespero traduzido em feridas na pele. E a escola, que deveria ser o bastião protetor durante formação crítica, frequentemente falha ao negar, minimizar ou punir comportamentos que, na verdade, refletem adoecimento mental grave.

Durante minha prática clínica com adolescentes, observo padrão repetido: jovens autolesionam-se em casa, escondem com roupas compridas e pulseiras, e na escola enfrentam despreparo total. Professores bem-intencionados, mas desinformados, tratam como indisciplina. Orientadores pedagógicos não sabem diferenciar automutilação de autoagressão impulsiva. Famílias, quando descobrem, costumam aumentar pressão e culpa, fechando ainda mais a comunicação. O adolescente permanece isolado, com aumentada probabilidade de progressão para comportamentos suicidas.

A responsabilidade institucional é inescapável. Escolas têm obrigação legal, ética e humanitária de identificar sinais de risco—marcas em antebraços, comportamento retraído, solicitações frequentes para ir ao banheiro, mudança abrupta de vestuário—e estabelecer protocolos de escuta ativa e encaminhamento. Isso não significa patologizar a adolescência normal; significa reconhecer quando o sofrimento ultrapassa limites adaptativos.

"A automutilação é um pedido de ajuda escrito na própria pele. Ignorá-lo na escola equivale a ignorar uma carta de desespero entregue pessoalmente. Que escolha humanitária é essa?"

Defendo que toda instituição de ensino implemente, sem demora: (1) capacitação obrigatória de docentes em reconhecimento de autolesão e primeiros socorros psicológicos; (2) contratação ou parceria com psicólogos escolares dedicados, não sobrecarregados; (3) protocolos claros de comunicação com famílias, sem julgamento; (4) parcerias formalizadas com centros de saúde mental para referência ágil; e (5) grupos de apoio por pares, supervisionados, que ofereçam validação sem normalização. Trata-se de investimento em prevenção—o mais rentável em saúde pública.

A escola não é clínica, verdade. Mas é o espaço onde adolescentes passam grande parte da vida formativa. Ignorar essa realidade é cúmplice do sofrimento silencioso que, nos piores cenários, termina em morte.

Precisamos agir agora, com evidência, compaixão e responsabilidade institucional. Os dados não mentem. As feridas nos antebraços de nossos adolescentes tampouco.

Quando uma criança grita por ajuda através do próprio corpo, negar a realidade não a protege—apenas adia o colapso. Que tipo de sociedade queremos ser?

Dra. Camila Torres — Saúde & Bem-estar. Banca de Jornal, Xaplin.