André Abujamra convida os mortos para dançar
André Abujamra concedeu entrevista à TV Folha na semana de lançamento de "O Homem Bruxa", seu novo álbum, em evento marcado para domingo, 17…
BICA.
O Fato
André Abujamra concedeu entrevista à TV Folha na semana de lançamento de "O Homem Bruxa", seu novo álbum, em evento marcado para domingo, 17 de março, em São Paulo. Durante a conversa com os jornalistas, o músico, ator e compositor apresentou material inédito envolvendo seu pai — aquele que o gerou biologicamente, mas também aquele que o gerou artisticamente através das fraturas e luminescências do DNA familiar.
A frase que vazou da entrevista — "Viajei na maionese. Resolvi levitar" — não é brincadeira de talk show. É programa. É manifesto. É a síntese de um homem que já atravessou a música erudita (formação em Juilliard), o cinema (trabalhou com Beto Brant), a televisão (programa "Casseta & Planeta"), as plataformas digitais, e agora retorna ao que sempre soube fazer melhor: pensar a existência através do som. O vídeo inédito do pai, exibido durante a entrevista, funciona como umbilical — conecta o público não apenas ao artista, mas ao menino que um dia precisou escolher entre a segurança da herança e o risco da invenção. Abujamra escolheu o risco. O risco escolheu Abujamra de volta.
O álbum "O Homem Bruxa" chega em contexto específico: 2024-2025, período em que a música popular brasileira ainda lambe as feridas de sua própria morte anunciada. Não há produção massiva. Não há consenso. Há apenas fractais de genialidade espalhados em nichos — e Abujamra, sempre foi niche, sempre será niche, sempre deverá ser niche para manter sua temperatura vital acesa. A entrevista funcionou como preview não apenas do disco, mas de uma postura: a de um artista que não negocia sua estranheza pelo conforto das plataformas.
A Bruxa que Somos Todos, Mas Poucos Admitem
Existe uma frase que circula entre os que entendem alguma coisa sobre arte: "O mercado não perdoa o diferente; o mercado apenas o isola elegantemente." André Abujamra viveu essa sentença em carne e voz. Rejeitado pela indústria mass-market, canonizado por uma elite de ouvintes que o consideram o artista brasileiro contemporâneo mais inteligente vivo — porque é. E agora, aos 52 anos, ele faz um disco chamado "O Homem Bruxa" e explica sua criação através de frases delirantes que soam como poesia: "Viajei na maionese. Resolvi levitar."
A verdade é que Abujamra nunca foi bruxa. Abujamra sempre foi espelho. E espelhos assustam porque refletem aquilo que preferíamos não ver.
O disco não é experimental por ser experimental. Não é obscuro por hobby. É genuinamente contemporâneo porque recusa a anestesia do algoritmo, recusa o conforto das harmonias já testadas, recusa a covardia de soar "agradável." A música de Abujamra dói. Música que dói é música que funciona. Música que funciona é música que muda o ar dentro de você.
O vídeo do pai exibido na entrevista — esse documento privado, tornado público — representa exatamente o gesto que faltava à música pop brasileira contemporânea: a coragem de sangrar. De mostrar as vísceras. De dizer: meu pai está aqui, está morto talvez, está vivo talvez, está em mim certamente. E isso importa para que você entenda que "O Homem Bruxa" não é produto. É confissão. É ritual. É a transmutação da dor pessoal em forma sonora.
A indústria musical brasileira está acostumada a fórmulas. Trap carioca, sertanejo, pagode de festa de condomínio — tudo tem seu nicho, sua métrica de sucesso. Abujamra não se encaixa em nenhum deles porque se encaixar seria morte. Então ele levita. Literalmente. A maionese é apenas a metáfora que os jornalistas conseguem capturar de uma experiência que é, por natureza, incomunicável pela linguagem comum.
O show de domingo em São Paulo será preenchido por aqueles que reconhecem que a arte real não conforta — confronta. E "O Homem Bruxa" é confrontação pura. É a insistência de que a beleza pode existir sem ser bonita, que a música pode existir sem ser melódica, que a vida pode existir sem ser fácil. André Abujamra sempre soube disso. Agora, finalmente, gravou. Agora, finalmente, não há desculpas para ignorar.
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