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A Xaplin e o Silêncio Confortável

Quando revisamos nossas pautas dos últimos 18 meses, descobrimos um padrão preocupante.

Coluna de Sebastião Leal — Ombudsman

Quando a Isenção Vira Desculpa

Recebi esta semana uma carta de um leitor que merecia estar na capa da Xaplin, mas não estará. Ele nos contou sobre uma rede de clínicas de reabilitação que, segundo investigação preliminar dele, cobra taxas abusivas de famílias em vulnerabilidade. Passamos a reportagem adiante. Nosso time editorial respondeu com silêncio educado.

Isso me incomoda. E deveria incomodar você também.

A verdade é que a Xaplin desenvolveu, ao longo dos anos, uma relação confortável com certos temas. Fazemos jornalismo de qualidade quando o assunto já possui uma certa "aprovação social". Migrações, tecnologia, cultura – sim, com prazer. Abuso institucionalizado em setores que envolvem pessoas idosas e doentes? Aí hesitamos.

Conforto Não É Excelência

Vou ser direto: quando revisamos nossas pautas dos últimos 18 meses, descobrimos um padrão preocupante. Matérias que exigem confronto direto com poder estabelecido – seja ele corporativo ou administrativo – tendem a ficar presas em discussões editoriais. Não por falta de relevância. Por falta de... digamos, apetite.

A isenção jornalística não pode ser um escudo para acomodação. O equilíbrio não significa fugir do incômodo; significa reportar o incômodo com rigor.

Temos bons jornalistas aqui. Competentes, curiosos, éticos. Mas sistemas institucionais criados para "não gerar controvérsias desnecessárias" funcionam como água fria jogada em ambições editoriais legitimas. Duas semanas de revisão legal para uma pauta sobre negligência em casarões de saúde? Razoável. Três meses de deliberação? Isso é procrastinação disfarçada de prudência.

O Que Publicamos Bem (Honestamente)

Antes de soar como crítica pura, preciso reconhecer: a Xaplin fez reportagens magníficas neste trimestre. A série sobre economia criativa nas periferias merecia todos os prêmios que recebeu. O especial sobre educação especial inclusiva tinha reportagem impecável. Nossos repórteres foram para a rua, entrevistaram pessoas reais, contaram histórias que importam.

Quando vencemos a inércia inicial, quando o editor-chefe dá o aval, quando ninguém teme pela reputação corporativa – aí sim, a Xaplin brilha. O problema não é capacidade. É vontade coletiva insuficiente.

As Perguntas Que Devemos Fazer

Por que levamos três meses para publicar uma investigação sobre fraude previdenciária, mas publicaríamos em duas semanas se fosse sobre inovação em startups? Por que um denunciante de abuso institucional recebe retorno genérico, enquanto um contato de um influencer é retornado em 24 horas? Por que as histórias de quem sofre demoram mais para chegar às nossas páginas do que histórias que afetam quem já tem voz?

Essas não são perguntas retóricas. São diagnósticos que precisam de tratamento.

O Caminho Daqui Para Frente

Comprometo-me, como ombudsman, a acompanhar pautas "difíceis" com mais rigor sobre quanto tempo levam para definição final. Se ultrapassarem 60 dias sem razão legal ou de reportagem legítima, isso entrará em meu relatório público. Vamos criar um painel de transparência sobre recusas editoriais – nem todas, por questões de segurança de fontes, mas as que pudermos divulgar.

Mas isto também depende de vocês, leitores. Enviem suas pautas. Cobrem respostas. Não deixem a Xaplin cair na armadilha de ser apenas bonita; insistam que ela seja também braba.

Uma redação que só publica o que não incomoda ninguém não é uma redação – é um catálogo de decoração.

A Xaplin é melhor do que o conforto que construímos para nós mesmos.