A primeira semana do Ombudsman
O novo ombudsman da Xaplin passou uma semana lendo tudo. O que funciona, o que preocupa e o que falta nesta editora que nao dorme.
Por Sebastiao Leal · 9 de abril de 2026
Quando aceitei o convite para ser ombudsman da Xaplin, pedi uma semana para observar antes de escrever. Queria ler tudo. Navegar pelas cinco revistas, abrir dezenas de e-books, clicar em cada link do catalogo. Queria entender o que esta editora e antes de dizer o que ela deveria ser.
O resultado dessa primeira semana e este texto. Nao e elogio nem demolicao. E o que vi.
O que funciona
A Xaplin tem algo raro no jornalismo digital brasileiro: identidade editorial. As cinco revistas — Intermezzo, Bica., Sururu_, Lado B. e A Meia-Luz — nao sao variações de um mesmo produto. Cada uma tem voz, ritmo e publico proprios. O Intermezzo publica jornalismo narrativo com fôlego de revista impressa. A Bica. trata literatura como arte, nao como hobby de fim de semana. O Sururu_ faz gonzo com coragem que a maioria dos veiculos grandes nao tem. O Lado B. resgata musica com inteligência de quem viveu a MTV dos anos 90. E A Meia-Luz trata sexualidade como cultura adulta, sem eufemismo e sem apelacao.
O catalogo de e-books impressiona pelo volume — mais de 200 titulos — e pelo preco justo. Ha material solido sobre ansiedade, financas pessoais, tecnologia, escrita criativa. O acervo de Cifras Xaplin e uma ideia simples e brilhante: revistinhas de letras e acordes a preco popular, com curadoria musical real.
A operacao tecnica e robusta. O site nao cai, as paginas carregam rapido, os links de pagamento funcionam. Para uma editora independente, isso nao e detalhe — e infraestrutura.
O que preocupa
A primeira coisa que notei foi o desequilibrio tematico. Das quase 400 publicacoes, ha uma concentracao pesada em politica e economia. Nao que o conteudo seja ruim — e bom. Mas uma editora com cinco revistas deveria ter distribuicao mais equilibrada. Onde esta a musica no volume de publicacoes diarias? Onde estao os ensaios literarios da Bica.? O Lado B. tem um hub bonito, mas a frequência de publicacao nao condiz com a ambicao do projeto.
A editoria visual precisa de atencao urgente. Encontrei paginas que dependiam de imagens de banco — o tipo de recurso que uma editora com pretensao artistica deveria evitar. Sei que ha um processo de reconstrucao em andamento, mas o leitor nao vê bastidores. Vê o resultado. E o resultado, em algumas paginas, e generico.
Encontrei sinais de crescimento acelerado sem revisao. Alguns conteudos pareciam duplicados ou inacabados — stubs, como se diz no jargao editorial. A maioria ja foi corrigida, mas o fato de terem existido indica que a producao, em algum momento, priorizou quantidade sobre qualidade. Isso e perigoso para qualquer veiculo, e fatal para um que se apresenta como premium.
O que falta
Tres coisas que nao encontrei e deveria ter encontrado:
Primeiro: uma politica editorial publica. O leitor nao sabe quais sao os criterios da Xaplin para publicar ou nao publicar algo. Quais sao os limites? Quais sao os compromissos? Uma editora que se leva a serio precisa dizer isso em voz alta.
Segundo: espaco para o leitor. Nao vi comentarios, nao vi cartas, nao vi canal de feedback alem do e-mail. Uma editora que quer comunidade precisa ouvir, nao apenas publicar.
Terceiro: diversidade de colunistas. Os oito colunistas atuais cobrem temas relevantes, mas a maioria opera no mesmo registro — informativo, didatico, seguro. Falta a voz que discorda, que provoca, que incomoda a propria editora. O Sururu_ promete isso, mas precisa entregar com mais frequência.
O papel do ombudsman
Meu trabalho aqui nao e defender a Xaplin nem ataca-la. E olhar para o que esta sendo feito e perguntar: esta bom o suficiente? O leitor esta sendo respeitado? O editorial esta cumprindo o que promete?
Na proxima coluna, vou analisar o setor de e-books em detalhe — qualidade do conteudo, consistência editorial e se o preco justo que a Xaplin promete se sustenta quando voce abre o PDF.
Ate la, uma observacao final: a Xaplin e uma editora jovem que faz mais coisas certas do que erradas. Mas jovem nao e desculpa para descuido. E o momento de acertar e agora, enquanto os habitos editoriais ainda estao sendo formados. Depois, fica mais dificil.
Sebastiao Leal e ombudsman da Xaplin. Esta coluna e publicada sem revisao ou aprovacao da editoria. Comentarios e criticas podem ser enviados para o e-mail da editora.
Quer ir mais fundo?