A lei contra a misoginia
Toda manchete é uma escolha editorial sobre o que merece a sua atenção.
"A lei contra a misoginia: os embates no Congresso e nas redes sociais - O Assunto #1695" — esta é a manchete. Seca, factual, aparentemente neutra. Mas nenhuma manchete é neutra. Toda manchete é uma escolha editorial sobre o que merece a sua atenção.
O contexto que falta
No fim de março, o Senado aprovou o projeto de lei que equipara a misoginia ao racismo e prevê penas maiores para crimes de ódio contra mulheres. A votação na Casa foi unânime, mas o consenso encontrou a porta fechada na Câmara dos Deputados, onde parlamentares da oposição fazem críticas e prometem trabalhar para barrar o avanço do projeto. Nas redes sociais, o debate público está contaminado com informações falsas sobre o escopo da lei – há conteúdos que afirmam que um mero “bom dia” poderia l
Este é um daqueles momentos em que vale parar e perguntar: o que isso muda na vida concreta de quem paga imposto, pega ônibus, coloca comida na mesa? Porque se não muda nada, talvez não mereça a manchete. E se muda tudo, merece mais do que um parágrafo.
A distância entre a manchete e a vida real é medida em privilégio. Quanto mais longe você está do problema, mais fácil é virar a página.
A opinião desta coluna
Não existe jornalismo sem posição. A isenção é uma ficção confortável para quem não quer se comprometer. Esta coluna se compromete: com a verdade factual, com a análise fundamentada, e com a coragem de dizer que nem tudo que é notícia merece a nossa resignação.
Algumas coisas merecem indignação. Esta é uma delas.
Beatriz Fonseca — Política & Sociedade. Intermezzo, Xaplin.