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A Gente Paga Caro pra Ficar Quieto

De acordo com levantamento divulgado pelo Instituto Datafolha em reportagem publicada na Folha de S.Paulo em 18 de abril de 2026, 67% dos brasileiros…

BANCA DE JORNAL

O Fato

De acordo com levantamento divulgado pelo Instituto Datafolha em reportagem publicada na Folha de S.Paulo em 18 de abril de 2026, 67% dos brasileiros afirmam ter abandonado reclamações legítimas sobre serviços ruins, produtos defeituosos ou direitos violados por simples cansaço de lidar com o sistema. A pesquisa entrevistou 2.087 pessoas em 130 municípios e revelou um dado ainda mais preocupante: entre esses "silenciosos por exaustão", 43% nunca tentaram reclamar sequer uma vez — desistiram antes mesmo de começar.

O mesmo levantamento mostra que o tempo médio gasto por um consumidor brasileiro em uma reclamação bem-sucedida é de 47 dias, envolvendo em média 8 contatos diferentes (email, telefone, WhatsApp, redes sociais, Procon, órgão regulador). Segundo a pesquisa, metade das pessoas que iniciam esse processo abandona entre o 3º e 4º contato. "É como se o Brasil tivesse criado um sistema invisível de silenciamento", comenta o sociólogo Rafael Martins, do Instituto Datafolha, em entrevista à rádio CBN em 22 de abril.

A situação é ainda mais grave entre idosos e pessoas de baixa renda: 71% desses grupos simplesmente aceitam o prejuízo. Uma mulher de 64 anos de São Caetano do Sul, entrevistada para a reportagem, resume bem: "Meu neto pagou R$ 300 por um curso online que não funcionava. Ele falou 'vó, não vale a pena o estresse'. E sabe o que é pior? Ele tá certo."

A Máquina de Cansar e Lucrar

Olha, filha, meu avô tinha um ditado que dizia: "Cansaço é o melhor negócio do patrão." Pois bem. O Brasil não é um país que nega direitos — não, não. É muito mais esperto que isso. O Brasil é um país que reconhece seus direitos, coloca tudo bonitinho na lei, e depois monta um labirinto tão cansativo pra você exercer esse direito que você acaba desistindo sozinho. E sabe o que é lindo disso tudo? O lucro segue intacto.

A gente vira prisioneiro da própria exaustão. E o pior: pagamos por isso sem nem perceber que estamos pagando.

É o que eu chamo de "silenciamento por atrito". Ninguém te bate. Ninguém te ameaça. A empresa não precisa. Ela simplesmente sabe que você vai cansar de ligar, de esperar, de ser transferido de setor em setor como um pacote perdido nos Correios. Você vai desistir, e ela fica com o dinheiro. Todo mundo feliz. Você "escolheu" aceitar.

Mas aqui está o nó da história, meu caro: isso não é incompetência. Incompetência é acidental. Isso é desenho. Arquitetura. Quando uma empresa consegue ser ruins de forma consistente — sempre transferindo você, sempre perdendo seu protocolo, sempre dizendo "vamos enviar um email que você nunca vai receber" — aquilo é estratégia. É tão eficaz quanto qualquer algoritmo.

O Cansaço Como Ferramenta de Poder

A gente não fala muito sobre isso, mas cansaço é uma arma. É arma de classe, é arma de gênero, é arma econômica. Quem tem dinheiro contrata advogado. Quem não tem, fica quieto. Mas não é porque não tem direito — é porque não tem fôlego. E sabe qual é a beleza perversa disso? Quanto mais pobre você é, mais caro fica exercer seu direito. Aquele dia que você sai do trabalho para ir no Procon? Perde a diária. Aquele táxi pro cartório? Sai do bolso. Aquele cansaço acumulado de ligar pra empresa 47 vezes? Aquilo é invisível, mas custa caro demais.

Enquanto isso, a empresa economiza com a quantidade de reclamações resolvidas. É um negócio redondo: ela lucra duas vezes. Uma com o produto/serviço ruim inicial. Outra poupando com as reclamações que nunca viram processo.

Mas E Aí? A Gente Fica Quieto Pra Sempre?

Não, meu filho. A gente não fica quieto pra sempre. Mas a gente aprende. A gente que está cansado — e aqui no Brasil todo mundo está um pouco cansado — precisa entender que esse cansaço não é fraqueza. É resultado de um sistema que foi desenhado exatamente pra nos cansar. Reconhecer isso é o primeiro passo pra mudar.

Tem que ter solidariedade entre os cansados. Tem que ter coletivo. Um faz barulho é isolado. Cem fazem barulho é movimento. E movimento custa muito menos — em tempo, em estresse, em dinheiro — que silêncio individual.

A filosofia de ponto de ônibus é simples: a gente não perde direitos porque esqueceu deles. A gente perde porque cansou de lutar. E empresa sabe disso muito bem.

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