A Apple sem Tim Cook: o fim da era de ouro e o que isso diz sobre IA
Tim Cook, que comandou a Apple por 15 anos com uma eficiência praticamente robótica, finalmente passará o bastão.
Coluna de Helena Vasconcelos — Tecnologia & IA
Quando um rei deixa o trono
A notícia caiu como uma bomba ontem: Tim Cook, que comandou a Apple por 15 anos com uma eficiência praticamente robótica, finalmente passará o bastão. John Ternus entra em setembro como novo CEO, e Cook migra para presidente do conselho. Parece um movimento tático, uma progressão natural de poder. Mas olhando para a tecnologia global em 2026, isso sinaliza algo muito mais profundo: estamos presenciando o encerramento de uma era onde a inteligência humana centralizada era suficiente para guiar gigantes da tech.
Vamos ser honestos: Tim Cook foi excelente no que fez. Transformou a Apple em uma máquina de lucro, dominou cadeias de suprimento, manteve a magia do design enquanto otimizava custos. Mas durante seu reinado, algo mudou radicalmente. A IA parou de ser ficção científica e virou infraestrutura. E aqui está o incômodo: a Apple foi surpreendentemente lenta em abraçar isso.
O buraco negro de IA na Maçã
Enquanto OpenAI, Google e até startups obscuras em São Paulo inovavam em modelos de linguagem, assistentes inteligentes e automação, a Apple... bem, a Apple lançou o Apple Intelligence em 2024 e ainda está tentando explicar por que você deveria se importar. Siri continua sendo uma piada corporativa. O "Siri mais inteligente" prometido não convence nem os fãs mais devotados da marca.
A verdade desconfortável é que a Apple sempre foi uma empresa de hardware e ecossistema, não de IA. Isso funcionou enquanto o mundo acreditava que inteligência artificial era um aplicativo que você baixava. Mas em 2026, sabemos que IA é o ar que respiramos digitalmente. Está em processamento de dados, recomendação de conteúdo, segurança, tudo.
A chegada de Ternus — um engenheiro operacional que liderou hardwares como Apple Watch — é um sinal de que a companhia ainda acredita que pode resolver isso com chips melhores e integração mais apertada. Talvez esteja certo. Mas é uma aposta, não uma certeza.
O que isso significa para o Brasil
Você pode estar pensando: "Helena, mas a Apple é lá na Califórnia. Por que devo me importar?" Porque, meu caro leitor, quando empresas gigantes mudam de direção estratégica, efeitos dominó chegam até aqui. Se a Apple continuar atrás em IA, seus produtos ficarão menos competitivos. Preços caem, margens reduzem, investimento em inovação desacelera.
Aqui no Brasil, somos um mercado que adora Apple — talvez um pouco demais, considerando nossas dificuldades econômicas. Mas o real impacto é em confiabilidade. Um iPhone cada vez mais defasado em capacidades de IA significa que desenvolvedores brasileiros terão um alvo móvel: construir para iOS fica mais complicado quando você não sabe se a Siri conseguirá executar sua função inteligente simples.
A lição que ninguém quer ouvir
Tim Cook construiu uma empresa vencedora dentro do paradigma 2011-2024. Mas paradigmas mudam. E aqui está o incômodo crítico: nenhuma liderança corporativa centralizada consegue pilotar mudança radical e executar manutenção do reino ao mesmo tempo. Cook tentou fazer os dois e, deixe-me ser honesta, falhou na primeira parte.
A Apple sob Ternus pode fazer melhor, ou pode repetir o erro de confundir "integração de hardware" com "inteligência real". Se for o segundo caso, veremos uma Apple menor, mais marginal, em dez anos. Não morta — a marca é forte demais. Mas significativamente diminuída.
O mundo inteligente está sendo construído por quem entende IA como primeira linguagem, não como acessório. A Apple sempre foi muito boa em tornar a complexidade bonita. Agora precisa ser boa em algo mais difícil: ser a complexidade. Espero que Ternus entenda isso melhor que seu predecessor entendeu.
"A maior armadilha de líderes bem-sucedidos é acreditar que o segredo de seu sucesso funcionará para sempre. Não funciona."